Barnes Dance e as faixas de pedestres diagonais

Poucas coisas na política de mobilidade urbana de São Paulo me deixaram tão feliz quanto a implementação das faixas de pedestres diagonais. A primeira delas foi colocada em dezembro de 2014, no cruzamento das ruas Cristovão Colombo e Riachuelo, no centro. Do relatório da CET de janeiro de 2016:

Os resultados positivos verificados na ocasião motivaram a implantação de um segundo projeto piloto, desta vez no cruzamento da Av. Ipiranga com a Av. São João, ocorrida em 25 de janeiro de 2015, no aniversário da cidade, que também produziu resultados positivos. Na sequência, novos projetos foram implantados, desta feita na R. Xavier de Toledo x Viaduto do Chá e na R. Brig. Gavião Peixoto x R. dos Estudantes, entre outras experiências, sempre monitoradas pelas áreas técnicas da CET.

Acho que a travessia de cruzamentos na diagonal não é novidade para ninguém que tenha o costume de caminhar bastante pelas cidades. É o caminho mais lógico e natural para quem quer chegar na esquina oposta, mesmo quando não existe a tal da faixa de pedestre diagonal. O que obviamente nos leva a uma pergunta: por que não existem mais faixas desse tipo espalhadas pela cidade?

FAIXA DE PEDESTRE
Foto: Folha

A ideia nem é tão nova assim

Fazer a travessia na diagonal não é nenhuma novidade. Segundo o CityLab, lá pelo fim dos anos 40, Kansas City e Vancouver já registravam a existência da tal da pedestrian scramble, mas a prática se popularizou com Henry Barnes, que comandou o setor de tráfego em algumas cidades norte-americanas e levou várias inovações para o setor. Uma delas ficou conhecida como Barnes Dance, um nome mais bonitinho para o momento em que todos os carros são obrigados a parar em um cruzamento e os pedestres podem atravessar para todos os lados – incluindo na diagonal. Quando o projeto começou a ser implementado em Denver, um repórter escreveu que a nova forma de atravessar cruzamentos deixou as pessoas tão felizes que elas dançavam pelas ruas. Daí a popularidade do termo Barnes Dance.

barnes dance
Uma galera dançando na Barnes Dance. Foto: Matt Dunn

Esse processo de todo os carros pararem nos sinais de um cruzamento para os pedestres atravessarem pode até ser meio natural nas grandes vias de hoje em dia, mas lá nos anos 60, quando cada vez mais carros surgiam nas cidades norte-americanas, a Barnes Dance começou a gerar uma polêmica enorme. O argumento era de que essa parada total do tráfego causava muito congestionamento, atrapalhava o trânsito, etc, etc. Barnes chegou a comprar briga com Robert Moses, tal qual praticamente todo mundo que não defendia esse “””progresso””” de abrir cada vez mais ruas para os carros passarem e diminuir o espaço dos pedestres (beijo, Jane Jacobs!).

Barnes Dance: o retorno

As pedestrian scramble foram deixadas de lado por muito tempo, mas os anos 2000 trouxeram novas discussões sobre mobilidade urbana e Barnes voltou à dança (sacaram o trocadilho? hihi). Com os pedestres ganhando cada vez mais visibilidade ao redor do mundo, muitas cidades voltaram a optar por um método mais seguro e prático de atravessar cruzamentos.

E aí eu abro um parênteses: quando se falava em faixas de pedestres diagonais, o quesito segurança nunca me vinha cabeça. Eu pensava, claro, na parte prática: atravessar na diagonal é muito mais rápido e nos poupa de fazer duas viagens, já que os sinais de pedestre em São Paulo já ficam com o tempo no limite para a gente atravessa uma rua, imagina duas, né? Mas depois comecei a lembrar das várias vezes em que, em um cruzamento, eu tive que me jogar na frente dos carros porque sempre tem carro vindo de um dos lados. Então entendi por que a dancinha do Barnes sempre é mais sobre segurança do que praticidade. Fecha parênteses.

O pedestrian scramble (maior e) mais conhecido é o de Shibuiya, no Japão. Por lá passam mais de 3 mil pedestres por dia e já virou um ponto turístico de Tóquio. Em Londres, a Oxford Circus foi todinha remodelada não só para ganhar uma faixa de pedestre diagonal, mas também para ser mais amigável para quem está a pé. No Brasil, as faixas diagonais já existem em cidades como São Paulo, Fortaleza, Goiânia e Rio de Janeiro!

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O cruzamento de Shibuya. Foto: Flickr

Leitura de banheiro:


 PS: não encontrei um equivalente em português para pedestrian scramble (ou Barnes Dance), por isso que usei apenas o termo em inglês no texto. Explico: a ideia da pedestrian scramble vai muito além das faixas diagonais e, como eu disse, é focada na segurança do pedestre. A travessia em diagonal só existe porque, nesse momento,  cruzamento é apenas do pedestre, sem interferência alguma do carro. A minha intenção, então, foi sempre passar essa coisa da via ser exclusiva de quem está a pé, não somente da praticidade de se cruzar a rua na diagonal 🙂

Oxford Circus_Londres
O cruzamento de Oxford Circus. Foto: Barry Phillips

 

Escrito por

Carioca apaulistada, jornalista, 26 anos. Gosta de escrever, viajar e um monte de outras coisas que não caberia nessa descrição.

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