Ed Sheeran em três atos

Fui vasculhar os arquivos do antigo endereço do Pitacos, lá no Blogspot, e encontrei: no dia 19 de março de 2013, escrevi um texto falando da minha expectativa de ver, naquele mesmo ano, um show do Ed Sheeran. Explicando: eu estava já com o intercâmbio de um mês em Nova York fechado e decidi ver se por algum milagre divino a turnê da Taylor Swift estaria na cidade no mesmo período. Dei e não dei sorte: ela não iria para Nova York, mas faria um show em Raleigh, cidade onde mora a Deia.  Chamei-a no Facebook, combinamos tudo, comprei passagem e ingresso e voilá, estava prontíssima para o show na PNC Arena.

Verdade seja dita, não era a Taylor que me interessava mais. Alguns meses antes, minha irmã havia me apresentado à música do Ed Sheeran e eu morri de amores por aquele ruivo tatuado – em grande parte, porque muito de seu ideal como artista havia sido inspirado pelo Damien Rice, músico que eu não sei nem falar o quanto amo. E naquele ano de 2013, Ed Sheeran abria o show para a Taylor, além de dividir o palco com ela em certo momento para cantar Everything Has Changed.

Àquela altura do campeonato, Ed não era só um mero número de abertura para o show da Taylor Swift. Já tinha um fandom próprio e arrasava corações adolescentes com Lego House. Antes que eu embarcasse para Nova York, ele anunciou um show na cidade, no Madison Square Garden, para o fim de outubro. Depois anunciou mais outro. Depois, mais outro, já que os dois primeiros esgotaram em pouco tempo. Enquanto eu caminhava por Manhattan, o ruivo já havia entrado na programação do luminoso do MSG, jogando na minha cara o fato de que ele se apresentaria em show solo apenas um mês depois de eu ir embora de NY.

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Diz a lenda que Sheeran decidiu seguir a carreira na música depois de, ainda criança, ver Damien Rice se apresentar em um pub. Damien, caso você não saiba, é um músico irlandês meio deprê que sobe no palco munido somente com um violão e um pedal de loop. A influência dele na música de Ed é super latente no primeiro CD, especialmente em Give Me Love – é só ouvir I Remember, do irlandês, que você vai entender o que estou dizendo.

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Naquele primeiro show em Raleigh, Ed Sheeran seguiu o script que eu veria novamente em São Paulo: em Give Me Love, dividiu a plateia em duas partes com diferentes vozes (Damien faz isso em Volcano, aliás) e em You need me, I don’t need you, abusou dos loops, incluiu um My Eyes Are Red e fez uma música de quinze minutos. Também cantou The A Team e Lego House, duas das músicas que alavancaram sua carreira. Pediu para a audiência cantar as loud as possible e esbanjou carisma. Mais tarde, voltou para cantar com Taylor e arrancou mais suspiros da plateia, formada majoritariamente por adolescentes do sexo feminino.

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Corta para 2014. Ed já havia lançado seu segundo disco, X, e estava em turnê mundial. No fim do ano, anunciou que faria seus primeiros shows no Brasil. Corri para a bilheteria do Espaço das Américas, na Barra Funda, e comprei um par de ingressos para ver o ruivo em abril de 2015.

Novamente, peguei um show que aconteceria às vésperas de mais um salto em sua carreira: em julho, Ed lotaria o estádio de Wembley, na Inglaterra, tornando-se o primeiro cantor a fazer tal façanha somente com um violão.

Lá estava o script completo: Give me love, You Need Mesing as loud as possible, etc, etc. Veja bem, isso não é uma reclamação. Muito do sucesso de Ed Sheeran (e acabei de ler um texto da Bilboard que cita esse tema) se dá pela intimidade que o ruivo consegue criar com o público mesmo em grande palcos. E mesmo quando a língua atrapalha.

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Ed Sheeran nasceu e cresceu no condado de Suffolk, ao leste da Inglaterra. Ele também tem a tendência de falar rápido, o que faz com que, muitas vezes, a gente não entenda absolutamente nada do que ele fala no palco. Tenho certeza de que mesmo nos shows nos Estados Unidos, MESMO NOS SHOWS DA INGLATERRA, as pessoas se perdem um pouco no que ele fala. Lembre-se sempre, Ed Sheeran: os gritos da plateia não significam, necessariamente, que as pessoas entenderam o que você está falando. Na maioria das vezes, elas gritam só por gritar.

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A língua pareceu ser uma barreira que Ed só notou quando seu coral improvisado em Give Me Love não saiu tão direitinho. Nesse momento do show, ele dá algumas instruções: vou dividir vocês em dois, esse lado canta assim, esse lado canta assado. Mas se você nunca viu um show dele, mesmo pelo Youtube, provavelmente vai ter dificuldades para entender essa parte. E aí saiu um negócio meio estranho que não ornou muito com a música, mas seguimos em frente.

Os sucessos do primeiro CD estavam todos lá, somados a músicas do novo disco: Sing foi a eleita para fechar a primeira parte do show, antes do bis, e rolou um mashup de Photograph com One. Na plateia, algumas pessoas arriscaram uma coreografia quando ele cantou Thinking Out Loud.

E foi também um show maior, né? Naquela primeira vez, foi um pouco mais de meia hora de apresentação, sendo que uma das músicas durava quinze minutos. Desse vez, foram duas horas de violão de um cara que estava a alguns meses de fazer a maior performance da sua carreira. Ed Sheeran estava no auge.

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Camis, Ed e eu na primeira vinda do ruivo ao Brasil

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Não foi surpresa saber que a turnê de ÷ incluiria o Brasil. Ele agora era ainda mais conhecido do público, enchia arenas ao redor do mundo e estava com um CD novinho em folha.

Minha irmã estava particularmente ansiosa. Ela ainda custava a acreditar que eu, que só conhecera o ruivo por causa dela, já estava no meu terceiro show enquanto ela não tinha visto nenhum.

Eu também estava ansiosa. O novo CD tinha uma pegada muito diferente dos outros dois, com arranjos mais elaborados, instrumentos de sopros, folk irlandês. Muitas das músicas não funcionariam no esquema só ele e o violão. Tirando isso, ainda tinha ficado a lembrança de uma entrevista que ele havia dado anos antes falando que, caso conseguisse tocar em Wembley algum dia, pensaria na hipótese de tocar com uma banda. Wembley aconteceu, o novo CD veio e eu temia a possibilidade dele dividir o palco.

Sim, temia. Porque muito do que me levou a assistir a três shows dele foi exatamente o fato dele dominar o palco só com um violão, uma espécia de Damien Rice mais pop. Toda a trajetória dele foi construída em cima desse estilo, mas o tom do novo álbum parecia dizer que A BANDA agora era uma realidade.

Como spoiler nunca foi um grande problema pra mim, fui fuçar na internet para saber o setlist da nova turnê. Dei um suspiro aliviado: parecia que o violão estava salvo. Caiu na minha mão, depois, as músicas que foram tocadas nos primeiros shows do Brasil e fiquei ultra feliz em saber que Nancy Mulligan era uma delas ❤

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Eu e minha irmã no show do Allianz. Agora ele se apresenta em estádio, gente!

É engraçado notar que, apesar da escalada gigante que ele deu de 2013 pra cá, muita coisa não mudou: na noite de ontem teve Give Me Love, teve You Need Me, teve sing as loud as possible, teve Sing encerrando a primeira parte do show, teve tudo isso. E eu entenderia completamente se alguém falasse que ele usa as mesmas fórmulas sempre, mas eu, como fã, vejo por um outro lado: são momentos que eu sei que vão acontecer e que me causam expectativa, especialmente com You Need Me. A versão pra show de Photograph surgiu novamente e Thinking Out Loud fez o sucesso de sempre. Não teve uma música que não foi cantada a plenos pulmões pela plateia – até os raps que Ed insiste que sabe fazer (não tô reclamando, eu acho os raps dele divertidos, mas VOCÊ NÃO É O EMINEM, Ô, RUIVO).

Mas teve uma coisa especial nesse show, que talvez eu não tenha percebido nos outros concertos: em vários momentos, Ed soltava um sorriso de quem estava se sentindo pleno. O público cantando suas músicas, as pessoas gritando quando os acordes começam, tudo era motivo para aparecer aquele sorriso. Depois desses anos todos, Ed Sheeran já aprendeu o que provoca, na plateia, a reação que ele quer, e não consegue esconder a satisfação que tem quando as coisas dão certo. Dessa vez, até nas interações o ruivo acertou mais: ele mesmo fazia cara de VAMOS COMEÇAR DE NOVO, GALERA quando via que as pessoas não estavam entendendo nada e me pareceu mais trabalhado na mímica – o que ajuda a equilibrar o sotaque que às vezes pesa.

Naquele novembro de 2013, quando Ed Sheeran acabava de fazer uma estreia gigante no MSG, a Bilboard escreveu: “Sheeran prova que fazer shows íntimos em grandes arenas é possível de alguma forma”. Quase quatro anos depois, a sensação de que Ed Sheeran se tornou um verdadeiro expert em atrair grandes plateias munidos apenas com um violão continua mais forte que nunca. Ainda bem.


Se você quiser ver um pouco do que foi o show de ontem, lá no meu Instastories ainda dá pra assistir alguns. É só me procurar: @mandy_roldan

Escrito por

Carioca apaulistada, jornalista, 26 anos. Gosta de escrever, viajar e um monte de outras coisas que não caberia nessa descrição.

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