O mistério das praças flutuantes em São Paulo

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No final de 2015, participei do Seminário Cidades a Pé, um evento bacaníssimo que rolou em São Paulo e que tratava sobre mobilidade a pé, como o próprio nome sugere. Ali estavam urbanistas, ativistas atuantes da causa e eu — jornalista, blogueira, pessoa que escreve sobre a vida de pedestre. Em meio a várias palestras ao longo de dois (ou três) dias, realizamos um passeio pelo bairro de Pinheiros. Sabe qual é a parte legal de caminhar com um monte de urbanista? Eles percebem coisas que você talvez não notaria sozinha. Tipo quando a gente estava passando por uma praça e a ideia nem era ir para a praça, e sim contorná-la, mas aí paramos um pouquinho ali e alguém falou: “nossa, que legal, essa praça é tão bonita que nem colocaram faixa de pedestre pra ninguém acessá-la e ela continuar conservadinha”.

Eu nunca tinha reparado na existência dessas praças flutuantes — praças que são como ilhas no meio do trânsito, e que, na teoria, são inacessíveis para os pedestres porque não tem faixa. Essa em Pinheiros tinha banquinhos e estava em uma região com pouco tráfego, então atravessar até ela não é assim tão difícil. Mas existe uma dessas pela qual eu passo sempre que fica no meio de um trânsito intenso e é até bem grandinha, mas sua serventia é basicamente controlar a passagem dos carros — afinal, a maior prioridade de São Paulo são sempre os carros.

Essa praça fica próxima ao Parque do Povo e passo por ela várias vezes na semana. Ela tem árvores, grama, uma barraquinha de flores e um ponto de táxi, e é a maneira mais rápida de chegar ao parque pelo caminho de onde venho.

Aliás, esse é um parque que, se de um dos lados tem uma ponte que liga direto com a estação de trem, do outro tem um sinal de pedestres que só funciona nos fins de semana. No resto dos dias, você basicamente tem que bancar ao kamikaze e se jogar na frente dos carros (e são muitos, porque a avenida é movimentadíssima) para poder atravessar. Para melhorar, a faixa fica depois de uma curva, então a visibilidade do motorista também não é lá grande coisa. Um sinal de pedestres que funcionasse em tempo integral poderia resolver a nossa vida, é claro, mas na maior parte do tempo ele está lá só como objeto de decoração.

A gente fala que São Paulo é uma cidade difícil para pedestres, é por coisas como essas: um parque com um sinal de pedestres constantemente apagado e praças que, na verdade, não são praças, são desvios do trânsito que calharam de ter um verdinho, ah, como é bom ter verdinho no meio da cidade!, um banquinho, uma calçadinha. Mas que, sem uma faixinha de pedestres, no meio do transitinho caótico da cidade, fica difícil de ser desfrutada.

Escrito por

Carioca apaulistada, jornalista, 26 anos. Gosta de escrever, viajar e um monte de outras coisas que não caberia nessa descrição.

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