A Buenos Aires de Evita Perón

Uma das personalidades mais famosas da Argentina é, sem dúvida, Eva Perón – Evita, para os não-tão-íntimos (todo mundo, na verdade). Atriz por um breve período, filha de família pobre, Eva Perón casou-se com Juan Perón e, pouco tempo depois, virou primeira-dama da Argentina. Foi partidária do voto feminino, trabalhou em projetos sociais e ganhou a simpatia das classes pobres do país – e, por causa disso, não era muito querida entre as classes mais altas.

Morreu jovem, aos 33 anos, e seu post mortem foi ainda mais polêmico.

Estou fazendo esse pequeno NARIZ DE CERA porque Buenos Aires ~esconde~ muitos locais que remetem à história de Evita. Já contei aqui dos tours que fiz com o pessoal da Cultour, e foi a partir deles que conheci um pouco mais sobre Eva Péron. Decidi, então, dividir os lugares (e as histórias!) que conheci durante a semana que passei na capital portenha aqui. Vamos lá?

Ministerio de Desarollo Social 

Comecemos por esse que é um dos prédios mais emblemáticos da cidade. É impossível não notá-lo: ele está em plena 9 de Julio e tem, nas suas laterais, duas obras de arte com Eva Perón estampada – “Eva de los humildes” e “Eva”. As imagens foram desenhadas pelo artista plástico Eduardo Santoro e construídas pelo escultor Alejandro Marmo e tem um motivo de ser: o lado que é voltado para o sul, com bairros mais pobres como La Boca, tem uma Evita mais serena e sorrindo, lembrando o carinho que ela tinha com as classes mais baixas; do outro lado, virada para o lado mais rico da cidade, está uma Eva Perón mais dura – a imagem nesse mural é uma interpretação do “Día del Renunciamiento”, quando uma multidão pediu que ela fosse candidata à vice-presidência de Perón.

Evita_Buenos Aires
O mural de Eva Perón voltado para o sul…
Eva Peron_Desarollo Social_Buenos Aires
…e o prédio visto a partir do norte, com uma imagem mais dura da primeira-dama

No site do Ministerio de Desarollo Social tem a história mais detalhada dos dois murais, que foram instalados recentemente.

Faculdade de Engenharia da UBA

Se você seguir reto por algumas quadras na 9 de Julio e depois virar na Independencia, sentido San Telmo, vai encontrar a faculdade de engenharia da Universidade de Buenos Aires – um prédio com uma escadaria e arquitetura em estilo greco-romana. Entretanto, esse prédio não foi construído para isso: originalmente, ele era a sede da Fundación Eva Perón. Criada e liderada por Evita, a fundação surgiu em 1948 e promovia assistência social. Ela teve diversas sedes provisórias, inclusive se baseando na central sindical argentina.

A certa altura, Eva decidiu que a fundação precisava de uma sede permanente – o local escolhido foi na avenida Paseo Colon, 850. Mas ela nunca veria o prédio pronto: ele foi inaugurado após sua morte.

Universidad de Buenos Aires, Facultad de Ingeniería
Foto: Flickr

Em 1956, após o golpe que tirou Perón do poder, o prédio foi entregue pelos militares à Universidade de Buenos Aires, que montou ali sua faculdade de engenharia. Esse é um dos fatos irônicos que marcaram o post mortem de Evita: o prédio que havia sido projetado para sediar sua fundação de assistência social acabou nas mãos da elite que tanto combatia seus programas.

CGT

A alguns metros da faculdade de engenharia está a Confederação Geral do Trabalho argentina, que serviu como uma das sedes provisórias da fundação Eva Perón – ela mesma frequentemente despachava de lá. Antes de morrer, ela havia pedido para que seu corpo ficasse no prédio, e assim foi feito: ela foi embalsamada e exposta na sala em que costumava trabalhar.

CGT_Buenos Aires
Foto: Flickr

E é aí que as coisas começam a ficar SOMBRIAS: com a ditadura, os militares ficaram com medo de que o CGT se transformasse em um local de resistência ao governo e decidiram SEQUESTRAR o corpo de Evita do local. Seguiu-se, então, 17 anos de mistério, até que seu corpo fosse devolvido a Perón NA EUROPA – ele estava exilado no país e sabe-se Deus como Evita chegou até lá.

Não existem certezas. Há boatos de que ela passou um tempo nos porões da casa de um militar que CHEGOU A SE APAIXONAR POR ELA e foi mandada clandestinamente para a Itália. Quando o corpo voltou para a Argentina, estava com nariz quebrado e com dedos faltando. O motivo? Ninguém sabe bem ao certo.

Cemitério da Recoleta

Chegamos ao último destino: o lugar onde Evita está enterrada.

O cemitério fica em Recoleta e, embora seja super possível chegar lá a pé (dá uma caminhada de uns 40 minutos), você pode optar por pegar um ônibus na 9 de Julio.

Em 1973, Perón foi eleito novamente presidente e sua terceira esposa, Isabel, foi sua vice. No ano seguinte ele morreu, transformando-a na primeira presidenta da Argentina – um de seus principais feitos: trazer o corpo de Evita de volta para o país.

Durante um breve período, ela foi enterrada ao lado de Perón em um cemitério nos arredores de Buenos Aires. Porém, acabou sendo transferida para o cemitério da Recoleta, no jazigo da família Duarte (graças a sua irmã). E essa é mais uma ironia.

O bairro da Recoleta é um dos mais nobres da capital. Lembram-se dos murais na 9 de Julio? A imagem de uma Evita dura e fazendo um discurso inflamado estava voltada exatamente para esses lados. Por ali ela não era querida, muito pelo contrário: quando morreu, em 1952, vítima de um câncer no útero, a Recoleta amanheceu com pichações dando vivas à doença. Pois é.

Então, sua permanência no cemitério da Recoleta é bizarra, já que boa parte das pessoas enterradas ali não iam com a cara dela.

Mas o fato que eu acho mais bizarro não é esse: uma das cabeças por trás do golpe militar em cima de Perón foi Pedro Eugenio Aramburu, que foi presidente da Argentina por alguns anos. Em 1970, ele foi sequestrado e morto por um grupo peronista radical chamado Montoneros. Alguns dizem que o grupo usou essa morte como moeda de troca pelo corpo de Evita (e foi por isso que ele foi devolvido para Perón mais ou menos na mesma época). O que se sabe é que, quatro anos depois, os Montoneros voltaram a sequestrar o corpo de Aramburu e se negaram a devolvê-lo até que Eva Perón fosse trazida de volta à Argentina. Só então eles largaram o cadáver em uma rua de Buenos Aires.

Aramburu_Recoleta_Buenos Aires
O túmulo de Aramburu. Foto: Flickr

A parte bizarra? O suntuoso túmulo de Aramburu está localizado a apenas alguns metros do jazigo da família Duarte.

**

O cemitério da Recoleta é um ponto turístico que vai além do corpo de Eva Perón. Ele é uma das poucas necrópolis que existem no mundo – verdadeiras cidades onde os mortos residem. Eu não curto muito essa ideia, na verdade, haha. Só fui vistá-lo por causa do túmulo de Evita, mas o cemitério em si realmente gigante, cheio de estátuas e, bom, vários jazigos mal cuidados. Na entrada existe um mapa com os TÚMULOS DE INTERESSE PÚBLICO e várias pessoas oferecem tour grátis. Se você curte o passeio, super aconselho – e não se esqueça da história acima e não deixe de visitar o túmulo de Aramburu. 

Escrito por

Carioca apaulistada, jornalista, 26 anos. Gosta de escrever, viajar e um monte de outras coisas que não caberia nessa descrição.

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